O FIM!

O FIM!

domingo, 26 de agosto de 2012

Gafes Escoteiras

Passeando pelos sites escoteiros (oficiais e não oficiais), vocês encontram algumas, digamos, “gafes escoteiras”, que poderiam ser evitadas com uma simples visita ao oráculo. Outras são simplesmente mitos que se instalaram no escotismo ou histórias que sofreram alterações quando foram passadas de geração para geração, ao mais puro estilo “telefone sem fio”. Abaixo, uma pequena relação delas.

Bôeres não eram índios!

A fama que gozava B.-P. na Inglaterra em tempos de guerra fez que o escotismo tivesse boa aceitação entre o público jovem. Aqui cabe lembrar que o que conhecemos por “movimento escoteiro” começa com o livro “Escotismo Para Rapazes”; porém, o que entendemos como scout (o rastreador, batedor, explorador) começa antes mesmo do “Aids to Scouting”. Feito o parêntese, voltemos à participação de Baden-Powell na guerra.
O “Cerco de Mafeking”, um episódio bélico bastante lembrado pelos escoteiros, principalmente pelas façanhas realizadas por B.-P., não ocorreu entre índios e ingleses. A cidade, Mafeking, foi sitiada por imigrantes holandeses que não eram partidários da ocupação inglesa à época. A estes imigrantes se lhes dava o nome de “Bôeres” (“fazendeiros”, em holandês).  Abaixo, vocês podem ver uma foto de um grupo Bôer.
Como veem, não eram índios armados com lanças e escudos. Inclusive, a cidade de Mafeking sofreu o cerco justamente porque os Bôeres adquiriram o melhor armamento da época para esta guerra.

Escotismo não é militarismo!

Quem já não viu essa expressão pelas redes sociais, listas de discussão ou literatura escoteira? Na verdade, essa afirmação não se trata de uma gafe, mas de uma tênue linha que separa as práticas militares do escotismo.
O escotismo, mesmo deixando claro desde seu nascimento que era um movimento para a paz e para a formação de jovens, algumas vezes recorreu à propaganda de caráter militar e, ainda hoje, usa nomenclaturas que nos remetem ao exército.
Mesmo assim, há os que justificam a distância ou a proximidade do escotismo em relação ao militarismo usando argumentos pejorativos como “nós pagamos 10” ou mesclando exército com regimes de exceção.
Lembremos que para a juventude da época, o exército era um dos maiores representantes do que se entende por cidadania e amor à pátria – duas das virtudes ainda trabalhadas no escotismo. Soldados e oficiais, além do respeito, eram tidos como heróis entre os jovens: Baden-Powell mesmo foi um desses heróis e, sabendo do fato, usou de tal fama para alavancar sua ideia, o “escotismo”.
Em 1914, quando o mundo estava com os olhos voltados para a Primeira Guerra, Baden-Powell escreveu um livro para escoteiros e para aqueles que já tinham passado pelo movimento (nessa época, o escotismo só contemplava rapazes até 14 anos).
O livro se chamava “Marksmanship for Boys” ou “Tiro de precisão para Garotos”, e ensinava jovens a empunhar um rifle, caso a Inglaterra chegasse a um conflito armado dentro de seu próprio país. O livro ainda mostrava como os escoteiros deveriam se organizar (companhias, batalhões, tropas etc) e a função de cada qual em sua Patrulha. Faz menção à conquista da insígnia “Pena Vermelha”, que era concedida por um oficial do exército aos que se destacavam no treinamento com base no livro.

Para quem leu o livro de Benjamin Sodré (o “Guia do Escoteiro”, ed. 1936), deverá ter visto a proposta de formação de Patrulha para uma caminhada, que nos lembra  a que é usada por militares. Neste mesmo livro, encontramos a suástica que, longe de ser conhecida somente por ter sido usada pelos nazistas, também fazia parte dos emblemas de exércitos.
Hoje, porém, apesar de alguma que outra nomenclatura, canção e atividade, o movimento escoteiro se assemelha muito mais ao exército, por exemplo, em ajudas humanitárias (que tão bem são feitas pelos militares) do que por qualquer outra coisa.

O novo acordo.

O ano passado poderia ter brilhado à perfeição no que se refere à literatura escoteira técnica, se não tivéssemos cometido uma pequena gafe.
Em 2009 foi aprovado o novo acordo ortográfico, que acabou mudando algumas palavras de uso frequente no escotismo. Este acordo passa a valer no dia 1° de janeiro do ano que vem e, mesmo assim, a literatura (principalmente a dos ramos) está sendo lançada à margem das novas regras.
Capa “Alcateia em Ação”.
Pág. 2 do “Alcateia em Ação”. Nas demais, ora com acento, ora sem acento.
O Word, programa de edição de textos, na sua versão 2010, já contempla o novo acordo ortográfico e corrige palavras como alcateia, plateia, ideia, assembleia ou heroico – todas sem o querido acento que gostávamos de colocar.
Para os que ainda têm dúvidas, recomendo o site Ortografa!, que ajuda na tarefa de redigir de acordo com esta nova gramática.

Escotismo é só para os jovens! Será?

Este blog às vezes veicula artigos direcionados a este tema justamente por entender que, além do jovem, os adultos contribuíram (e continuam a contribuir) ao sucesso que hoje é o escotismo.
A afirmação do título é correta, desde que entendamos por “escotismo” a aplicação do método escoteiro, cujo alvo são as crianças. Por definição, se escotismo é uma escola de cidadania, cedo ou tarde teremos que nos graduar e passar a ser cidadãos – que é o que entendemos pela vida adulta, o trabalho, a formação de uma família, as responsabilidades etc.
Mesmo assim, por repetir o mantra “escotismo é para jovens”, acabamos nos esquecendo de dar a merecida atenção a quem tem o mérito de deixar sua família em casa num sábado para ir até uma sede escoteira.
Em países como Estados Unidos, Canadá e principalmente Inglaterra, temos visto campanhas totalmente direcionadas ao voluntariado para que possa, ele também, ocupar seu tempo livre em um ambiente escoteiro, não só como “chefes”. Exemplo deste tipo de publicidade é o próprio apresentador Bear Grylls que, no ano passado, fez um anúncio televisivo para cooptar adultos para a The Scout Association.
Além disso, temos a associação de adultos vinculada à WOSM, que pouco é conhecida no Brasil. Trata-se da ISGF –International Scout and Guide Fellowship. Caso queira saber um pouco mais, basta clicar aqui.

Com as próprias pernas, mas sem o próprio nome.

Contadíssima e lendária a história do Caio Vianna Martins – o escoteiro que se tornou herói por dispensar uma maca e deixá-la aos feridos mais graves num acidente de trem.
Até aqui, ao que parece, não há nada de errado, se não fosse por um detalhe “alla” jogo de Kim. A grafia correta do sobrenome do Caio é “Vianna” (com dois N). Na imagem, vocês verão que nossos sites parecem não entrar num acordo.
Vocês poderão pensar: “mas é só uma letrinha”. Se aos vivos lhes devemos respeito, aos que já não se encontram entre nós devemos mais, a começar por escrever corretamente o nome de quem, ainda hoje, inspira jovens e adultos.
Caio Vianna Martins.  Além do túmulo, há um documento (talvez único) que certifica a grafia correta do nome, que é o atestado de óbito de Vianna, encontrado em Belo Horizonte no arquivo público. Tiremos essa dúvida? A dica é para o CCME.

Ouça os jovens…ouça os mais velhos…afinal, a quem devemos ouvir?

A exemplo do “escotismo não é militarismo”, esse é outro mantra evocado, muitas vezes, de forma equivocada.
Os leitores concordarão que por mais desculpas que possamos dar em relação aos anseios de uma tropa, estamos tratando com garotos e garotas com o discernimento próprio e natural da idade deles. Concordemos, então, que ouviremos o jovem naquilo que lhe diz respeito, deixando ao adulto as questões referentes aos…adultos.
Escotismo, em todo caso, será “um movimento juvenil com a orientação e coordenação de adultos”.
Lembre-se que o importante não é a gafe – algo que todos cometemos no dia a dia. O importante é a rapidez em corrigi-la, contrastar a informação e buscar novas fontes para enriquecer o conhecimento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário